26 fevereiro, 2014

Greve das Etecs e Fatecs – comentários de um professor

___Como já falei em outras ocasiões aqui no blog, eu trabalho na Escola Técnica Estadual de São Paulo, a famosa Etesp. Escrevi, mais de uma vez, sobre alguns dos problemas da escola –, sem contar os problemas da Educação brasileira como um todo. Desde o dia 17 de fevereiro, as Etecs e Fatecs estão em greve. 

"O que vale mais para Geraldo Alckmin?", por Carlos Latuff

___Exatamente por conta dos excelentes resultados da Etesp, faz alguns anos o governo estadual, como propaganda política, tem espalhado Etecs e Fatecs como gremlins molhados por todo o estado de São Paulo. Os resultados são pífios. O motivo é simples: não é o nome “Escola Técnica” que traz a qualidade. Simplesmente fundar Etecs e Fatecs com quase nenhum investimento além da construção de edifícios não resolve nada. 
___Os professores das Etecs* recebem menos direitos que os professores das demais escolas estaduais. Na maioria dos casos, mesmo concursados, são registrados como CLTs. Não recebem cesta básica, não têm plano de saúde, nem vale transporte. E o salário, ô!, como era de se esperar, é menor que o das escolas estaduais. Não é à toa que muitas das Etecs não consegue completar o quadro docente. 
___A greve deste ano, a primeira desde 2004, luta, entre outras coisas, para que os trabalhadores das Etecs e Fatecs tenham um plano de carreira. É pouco? Sim, muito pouco. Mesmo que vitoriosa, a greve não vai trazer uma grande melhora na vida de seus participantes. Tanto que não sou o mais fervoroso defensor da greve. Ainda assim, participo dela. 
___Mesmo não achando o movimento perfeito, boicotá-lo seria o mesmo que lutar contra trabalhadores que estão simplesmente tentando melhorar um pouquinho de vida. Respeito quem não quer participar, mas acredito que não fazer nada nunca traz nenhuma melhora. 

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P.S.: Greves são compostas de várias atividades: reuniões, passeatas, aulas públicas, panfletagens, etc.. Sendo assim, na sexta-feira, dia 28/II, darei uma aula pública no campus da Etesp/Fatec-sp. A aula acontecerá às 8h da manhã, na Praceta, em frente ao prédio Ary Torres. Tema: “Pelego: do século XIII ao XXI.”. 

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* Como sou funcionário de uma Etec, conheço melhor a situação das Escolas Técnicas e, por isso, acabo me atendo mais a elas no texto. 

23 fevereiro, 2014

O golpe interplanetário gayzista-militar de 7º grau organizado pelas feministas

___Não é difícil encontrar por aí pessoas reclamando sobre as bobagens que os outros compartilham em facebooks e afins. Eu, sinceramente, acho muito interessante. É bacana descobrir levemente o que as pessoas que eu conheci por aí pensam, quais as suas opiniões políticas, suas crenças, gostos, se aceitam ou não debater. 
___Dia desses, uma das pessoas da minha timeline compartilhou um convite para o “III Encontro Ufológico sobre Contatos Imediatos do 5º Grau”. 

Bobagens que compartilham por aí - UFOs

___Ri até a manhã de hoje, quando vi a mesma pessoa compartilhando seu apoio à violência da PM. Cliquei no perfil para dar uma olhada com mais atenção e me deparei com todos os tipos de horrores – comentários machistas, homofobia, ignorância política. Resolvi parar de olhar mais ou menos quando começaram as postagens de apoio à Ditadura Militar. 
___Eu sei que, de quando em vez, pode ser meio nauseante saber que existem pessoas que pensam assim. Entretanto, não deixa de ser divertido ver alguém compartilhando “General brasileiro diz que se for preciso os militares darão a própria vida para livrar o Brasil do comunismo” junto com postagens com fotos “reais” de extraterrestres. 

21 fevereiro, 2014

Censura: uma faca de dois gumes

___A censura, para o censurador, é sempre uma faca de dois gumes. O resultado dela pode ser exatamente o que o censurador queria – e aquela obra, aquela fala acaba por desaparecer completamente. Infelizmente, esse foi o caso, por exemplo, de alguns dos escritos de Pedro Abelardo, queimados no século XII. 

Censura, por Luis Quiles

___Por outro lado, censurar pode servir como uma fantástica propaganda. A tentativa de censura atrai a curiosidade e a obra acaba atingindo um público completamente novo. 
___Não é apenas a curiosidade que causa esse efeito anti-censura. Incomodados, os apreciadores da obra censurada a espalham, fazendo com que a sua mensagem tenha mais audiência do que poderia se esperar inicialmente. 
___É exatamente esse último efeito que eu – e muitos outros – estamos causando agora ao divulgar por aí o ótimo vídeo que o Patrícia Rafucko Poeta fez comentado o editorial do Jornal Nacional. Vídeo que as Organizações Globo conseguiram censurar com a tosca desculpa do copyright.* 


___Diga-se de passagem, não apenas o vídeo acabou mais divulgado, como, também, os ótimos links selecionados pelo Rafucko: Globo exalta a ditadura (1975), O mantra “vandalismo”, A prisão de Arthur Couto: o que realmente aconteceu e Rede Globo mente sobre protesto.
___Caso as Organizações Globo, a PM ou o Nicolau Eymerich não tenham apreciado este texto, tenho uma sugestão: tentem censurá-lo. Acho que, agora, conseguir um efeito censura medieval vai ser um pouco mais difícil. 

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P.S.: Aproveitando, vale linkar também o texto “O bloco dos Desobedientes”, de Pablo Ortellado. Uma das melhores análises que eu li na grande imprensa sobre o fenômeno do black bloc.

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* E antes que alguém defenda o copyright da Globo, vale dar uma pesquisada no que é fair use.

20 fevereiro, 2014

Educando

___Uma das melhores coisas do trabalho de professor é ensinar para um monte de gente o que você acha interessante, divertido, importante. É delicioso, depois de algum tempo, perceber alguns alunos pensando de maneira diferente, questionando, ganhando gostos, vencendo preconceitos, mudando o rumo das próprias vidas. Faz mais de 15 anos que eu faço isso profissionalmente e continuo achando uma das melhores coisas do mundo. 
___Desde o último sábado eu comecei – aos poucos – a fazer isso, também, de maneira não-profissional. 

Alexandre

___Esse aí em cima é o Alexandre, o filho da minha irmã, o meu primeiro sobrinho próximo. Meu plano é bagunçar a vida dele mais do que eu zoneio a dos meus alunos. A única coisa chata é que eu não vou receber para fazer isso. 

A vida de um macho, por Laerte

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P.S.: É uma pena que, na foto, o pobre Alexandre estava tão rodeado de azul. Espero logo conseguir consertar esse problema. 

Educando meninos e meninas, por Laerte

12 fevereiro, 2014

Mais alguma coisa para lavar?

___Tentando dividir da melhor maneira possível as tarefas domésticas, aqui em casa a minha esposa lava a roupa e eu coloco para secar; ela cozinha e eu faço a mais inglória das tarefas: lavo a louça. 
___Lavar a louça é realmente uma tarefa ingrata. Se você demora a lavar, a pia fica fedendo, fica mais difícil limpar a sujeira. Além disso, ninguém agradece você, não existem elogios. Quando se come uma comida gostosa, é comum dizer “Que delícia!”, “Fantástica essa sua macarronada”, por outro lado, ninguém elogia a pessoa que lava a louça: “Pelos deuses! Como brilham esses talheres!”, “Olha como esse prato está limpinho”. 
___A tarefa torna-se mais inglória ainda pelo bom humor da minha esposa. 

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___Cena clássica. Eu, na cozinha, de avental e luvas, ariando panelas; minha esposa, na sala, vendo televisão e tomando cerveja. Quando estou quase terminando, apenas passando sabão nos últimos copos, eu grito:
___– Amor, falta lavar alguma coisa?
___– Sim.
___Esticando o pescoço para ver se sobrou algum prato na mesa, pergunto:
___– O que falta lavar?
___– A roupa. 

04 fevereiro, 2014

As minorias e o comediante

___Durante uma conversa com uma ex-aluna muito inteligente e politizada, eu defini o que são minorias. Incomodada, ela disse “Poxa, professor, é claro que eu sei o conceito de minorias.”, com a maior cara de “Você acha que dá para não saber?”. Talvez realmente eu tenha sido excessivamente didático, mas, infelizmente, tenho de dizer: sim, dá para não saber. O exemplo mais fácil seria o do pastor Marco Feliciano que, mesmo tendo presidido a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, não parece saber nada do conceito. Mesmo assim, prefiro tratar de outro exemplo. 

Pastor Marco Feliciano e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, por Simanca

___No fim do ano passado, Danilo Gentili, no seu blog Respondendo Idiotas, resolveu responder ao texto “Carta aberta aos humoristas do Brasil”, de Alex Castro. Danilo respondeu de maneira dura; mesmo assim, não acho que a sua réplica precise de uma tréplica. Mas, acho que vale a pena fazer uma correção.
___Em determinado momento, Alex Castro diz: “A questão é: quem se dá mal nessa piada? Se é a vítima, o subalterno, a minoria, a mulher, o gay, o negro, etc, então essa piada é parte do problema. Ela confirma, apoia, sustenta a ideologia dominante. Ela está à serviço do machismo, do racismo, da homofobia.”. E o Danilo responde: “Perceba: ele engloba as MULHERES e os NEGROS entre as minorias! Vamos aos dados do IBGE: No Brasil, pretos + pardos somam 50,7%. Mulheres 51%. Alex Castro 60% – e ha previsões de que ele se torne 67% até 2015 se continuar engordando desse jeito.”. 
___Danilo Gentili, pelo visto, ignora o conceito de minorias. Vou, portanto, explicá-lo.

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___Caro Danilo Gentili,
___A palavra minorias, da maneira que o Alex Castro usou, é uma catacrese, uma palavra que não descreve com exatidão o que se quer expressar, assim como o “braço do sofá” ou a “cabeça do prego”. Só mesmo alguém com graves problemas cognitivos (ou com excesso de filmes da Disney no cérebro) ficaria horrorizado ao saber que ontem eu bati com o martelo na cabeça do prego.
___Portanto, caro comediante, a palavra minoria pode, sim, ser usada para falar de um grupo pequeno. Como, por exemplo: “Apenas a minoria dos humoristas deu ouvidos à carta aberta do Alex Castro.”. No entanto, esse não é o único uso da palavra e não foi assim que a palavra foi utilizada no texto. Corrigir a palavra como você fez, Danilo, apenas demonstra a sua ignorância. 
___A palavra minorias é um conceito sociológico muito utilizado para designar grupos que são minorias políticas, grupos com menos direitos, com pouca representação, sem apoio dentro da sociedade. Não importando o tamanho do grupo. Você mesmo citou que “No Brasil, pretos + pardos somam 50,7%.”. OK. Agora me diga: no Congresso Nacional o número de políticos negros (ou interessados nas causas dos negros) chegam perto de 50%? Não, né? Só para dar um exemplo numérico de como os afrodescendentes são uma minoria política, dos 81 senadores, apenas 2 se consideram negros ou pardos. O mesmo com acontece com as mulheres. Mesmo sendo a maioria da população, elas são muito mal representadas e, portanto, são consideradas uma minoria. 

Ditadura das minorias, por Kayserx

___Vale lembrar que não são apenas os grupos grandes que são considerados minorias. Os ateus e os homossexuais são minorias numéricas e, também, são rejeitados socialmente e pouco representados politicamente. Por outro lado, grandes e ricos latifundiários são uma minoria na população brasileira e, mesmo assim, estão muito bem representados em Brasília.
___Claro, ninguém é obrigado a conhecer conceito algum. Mesmo assim, acho que vale a pena lembrar que esse é um conceito que costumam ensinar nas escolas. Talvez, Danilo, você devesse ter prestado mais atenção às aulas. 

Capa do livro de Danilo Gentili

02 fevereiro, 2014

O chapéu de Cleópatra

Chapéu de Cleópatra VII

___Existem duas receitas simples de sucesso na internet: pornografia e gatinhos fofos. Inclusive, a revista Forbes afirma que a pessoa mais rica da internet é o dono do tumblr Indifferent cats in amateur porn. (É impressionante o que se acha na internet, né?) Como eu não planejo investir em pornografia e não tenho gatos em casa, acho que o meu blog está fadado ao fracasso. Mesmo assim, como quem não tem gato, caça com cão, vou aproveitar para postar umas fotos muito fofas das minhas cachorrinhas. 
___Eu gosto da Cleópatra VII e da Isabel Allende, acho ambas muito fofas, mas sei que não é todo mundo que pensa como eu. Só colocar fotos delas aqui pode não parecer mesmo muito interessante. No entanto, como um cachorro mordendo um homem não é uma notícia, mas um homem mordendo um cachorro é, acho que vocês podem achar bacana ver a Cleópatra VII usando boné. 
___Não acho que a minha cachorra goste de usar boné, entretanto a pobrezinha desenvolveu lúpus* e isso faz com que ela não possa tomar sol no nariz. Para passear com ela, eu adaptei um boné. Essa foi a primeira tentativa: 

Cachorra de boné

___Como a Cleópatra VII tirava o boné e a aba era muito curta para cobrir todo o focinho, minha esposa fez algumas adaptações. Eis o boné 2.0:

Cachorra de boné

___Esse funcionou perfeitamente. 
___Para terminar, uma foto comigo, com a Isabel Allende e com a Cleópatra VII, de boné, passeando pela rua:

Cachorra de boné - passeio

___Ficou fofo, não?


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* Aquela doença que o Dr. House sempre suspeitava que seus pacientes tivessem, mas eles nunca tinham. Para falar a verdade (e para fazer um spoiler), no oitavo episódio da quarta temporada o paciente tinha lúpus.

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