16 de julho de 2026

A Odisseia, Lupita Nyong'o e Helena de Troia: questão

 


            Aproveitando a estreia do filme A Odisseia, vai abaixo uma questão que eu fiz para os meus estudantes:

 

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Em 2024, foi anunciado que o premiado diretor Christopher Nolan iria filmar uma versão do clássico grego Odisseia, de Homero. Entretanto, diante dos boatos de que Lupita Nyong'o, uma atriz negra, iria interpretar Helena de Troia, algumas pessoas começaram a demonstrar grande desagrado. O assunto foi debatido tanto online, vide o exemplo do historiador Thiago Braga, como em revistas consagradas, como a Newsweek. Bem-humorado, um internauta com a alcunha de @agraybee escreveu: “Eu não sabia que Helena de Troia poderia gerar tanto conflito.” (disponível em https://x.com/agraybee/status/2056477961000267877. 18/05/2026.). Explique, demonstrando conhecimento histórico, qual a graça do comentário de @agraybee.

 


 

31 de janeiro de 2026

Procedimento de Rotina


Quando se vai ao posto de saúde em um dia de vacinação, pode-se ir com imaginação e esperar muita coisa. Sem imaginação, espera-se apenas receber uma vacina.

No meu caso, realmente fui vacinado. Só não esperava que fosse o próprio Alexandre Padilha, Ministro da Saúde, quem viria aplicar a injeção.

 


Resultado: apareci na Globo e no site do Ministério da Saúde.

31 de dezembro de 2025

Gerald Thomas chama o público de otário e sai aplaudido de pé

 

            A obra O porco, de Nelson Leirner, foi enviada em 1967 para o 4º Salão de Arte Moderna de Brasília. Depois de aprovada, Leirner escreveu para o Jornal da Tarde questionando os motivos para a escolha, deixando claro que os curadores aceitaram aquele porco empalhado, dentro de um engradado de madeira, por ele já ser um artista conhecido, não por algum valor artístico intrínseco à obra.



            Agora, no final de dezembro de 2025, saiu de cartaz a peça Sabius, os moleques, de Gerald Thomas. Foi dito que a peça tem uma “linguagem determinada a reiterar verbos, excessos e sínteses, com furiosa dicção capaz de arregimentar contradições, cicatrizes históricas e feridas que sangram à luz do liberalismo e das vanguardas”. O mesmo poderia ter sido escrito pelos curadores que, depois da humilhação pública feita por Nelson Leirner, tentaram justificar o motivo pelo qual haviam selecionado O porco para o Salão de Arte Moderna.

            Escrevendo para o jornal O Estado de São Paulo, o crítico Dirceu Alves Jr diz que “Em Sabius, Os Moleques, o dramaturgo e diretor Gerald Thomas, de 71 anos, criou a metáfora de um planeta Terra suicida que sucumbiu à humanidade.”, que a peça “é uma distopia sobre o caos gerado pela exaustão e a falta de psicotrópico suficiente para salvar o mundo.”. Que Thomas “criou mais uma dramaturgia visual em que as imagens se sobressaem às palavras.”.



            Já eu acho que a fama de Gerald Thomas permitiu que fosse colocada no palco uma peça que ele nem mesmo acabou e que críticos e amantes do teatro vão se contorcer para dizer que aquilo foi maravilhoso. Ou vão engolir qualquer bobagem que o autor disser para descrever a peça como se estivessem engolindo um pedaço engordurado de pernil. A carreira de Thomas vai permitir que ele coloque um monte de pequenos textos mal-acabados e desconexos no teatro, que ele até mesmo trate com desdém verdadeiros mestres do teatro como José Celso Martinez Corrêa, e ninguém vai se levantar para vaiar.

            O público só ficou sentado, embasbacado, fingindo que entenderam o grande Gerald Thomas por mais que nada daquilo fizesse sentido. Enquanto isso, Thomas lhes cuspiu na cara, colocou na própria peça o fato de só ter escrito até ali. Contou em entrevistas que havia terminado a peça dias antes. E, assim como frequentadores de museus hoje olham O Porco na Pinacoteca e fingem entender o significado da obra, as pessoas na plateia se levantaram e aplaudiram Sabius de pé.

 

30 de novembro de 2025

O Caroço da Cabeça e os Assentos Preferenciais (10 anos depois)

            Neste mês de novembro de 2025, o metrô de São Paulo fez uma campanha que dizia “lembramos: quando todos os assentos estão ocupados, todos os assentos são preferenciais. Seja gentil.”. Acima dos assentos preferenciais oficiais, a seguinte placa fulgurava:

 


            A campanha me lembrou um texto que eu escrevi faz 10 anos, citando uma música dos Titãs (lançada 10 anos antes do meu texto): “O Caroço da Cabeça e os Assentos Preferenciais”. Segue o texto com pequenas modificações:

 

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___Desde que o prefeito Fernando Haddad resolveu aumentar muito o número de ciclovias pela cidade de São Paulo, a mídia (bem sustentada por empresas de automóveis) e os carrodependentes em geral têm chorado como se lhes houvessem arrancado as pernas sem anestesia. Pessoalmente, acho importante refletir: por que as ciclofaixas são necessárias? A resposta é simples: pelo mesmo motivo que os assentos preferenciais são necessários. 


___Se você pensar bem, todo assento é preferencial. Principalmente em um transporte público. É óbvio que uma pessoa sentada, ao perceber que um velhinho subiu no ônibus ou que uma mulher grávida entrou no vagão, deve se levantar e ceder lugar. Infelizmente, isso não acontece o tempo todo. 
___Quem está confortavelmente sentado prefere “não ver” aquela moça segurando o bebê de colo. Exatamente por conta dessa falta de respeito e empatia, tornou-se necessária a criação de assentos preferenciais.* O lugar com uma plaquinha e/ou com uma cor diferente não resolveu o problema, mas ajudou a estimular o cuidado com o próximo. 


___E é aí que entram as ciclovias. Quem está sentado deve oferecer o lugar para uma pessoa idosa; como não se costuma oferecer, torna-se imprescindível a criação de um assento preferencial para estimular o cuidado com o próximo. Quem está no veículo maior, mais potente, que tem mais chance de matar alguém, deve** zelar pela segurança dos veículos menores. Entre os veículos menores, que devem ser respeitados nas ruas, estão as bicicletas. Como, normalmente, os motorizados não zelam pela segurança dos ciclistas como deveriam, tornou-se necessária a criação de faixas exclusivas para ciclistas. 
___Portanto, caro motorista, se você e seus companheiros carrocratas respeitassem os ciclistas, nenhuma ciclofaixa seria necessária. E quanto mais rápido os motorizados aprenderem a zelar pelos ciclistas, mais rápido as ciclovias poderão desaparecer. Aí, só vai faltar os motorizados e ciclistas aprenderem zelar pelos pedestres. 

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* Por mais fofo que seja imaginar um passado idílico, dizendo “Antigamente, as pessoas cediam lugar. Existia mais respeito.”, vale dizer que as coisas não eram bem assim. Faça um pequeno exercício de História Oral e se surpreenda. 
___A título de curiosidade, vale citar que o município de São Paulo destina assentos preferenciais para idosos em transporte público desde meados da década de 1980. 
** Deve por respeito e por força da lei. Vide o parágrafo segundo do Artigo 29, do Código Brasileiro de Trânsito. 

31 de outubro de 2025

30 de setembro de 2025

Uma resposta serena a um pai indignado

             Uma amiga minha certa vez me acusou de ser uma pessoa calma. Não posso aceitar calado uma acusação desse tipo e me sinto obrigado a postar uma mensagem que tive de enviar para um pai de aluno e para a ouvidoria do meu trabalho em meio às aulas online da pandemia.

 

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Caríssimas pessoas interessadas,

            Como professor, ensino meus estudantes que é importante saber pensar de diversas formas, ensino que criticar pontos dos quais eles discordam é salutar. Por isso mesmo, não fico incomodado ao receber da direção uma reclamação enviada por um pai de aluno à ouvidoria de ensino. Tendo em vista que só tive acesso à “síntese da manifestação”, ao resumo das reclamações feitas pelo pai do estudante, já me desculpo se eu acabar por responder pontos que não foram levantados.

            A reclamação foi feita por conta da videoaula intitulada “Leitura (principalmente) do Canto V da Ilíada” (https://youtu.be/FgOHG4yLtKc), na qual, como uma atividade introdutória aos trabalhos feitos sobre o Período Homérico, li alguns trechos da Ilíada, refleti e fiz algumas pequenas análises. Tal atividade introdutória é de suma importância como exemplo para as atividades seguintes em que os estudantes tiveram de ler, sozinhos, trechos selecionados da Ilíada e da Odisseia. Além disso, o tom jocoso da videoaula normalmente apresenta resultados positivos no objetivo de evitar certos receios que os alunos podem ter quando se deparam com uma obra clássica. Por fim, diversos trechos da aula podem ser justificados facilmente com uma breve olhada nas competências, habilidades e valores expressos no Plano de Trabalho Docente.

            A primeira reclamação que aparece na “Síntese da manifestação” é sobre o final do Canto I da Ilíada. Para introduzir o assunto, coloquei o texto entre os versos 555 e 569 na tela. Com o objetivo de facilitar a compreensão dos estudantes, utilizei a tradução em prosa de Fernando C. de Araújo Gomes (HOMERO, Ilíada. Rio de Janeiro: Ediouro/São Paulo: Publifolha, 1998.). Segue o trecho da Ilíada:

 

                – Sabes que receio terrivelmente em meu coração que Tétis, a de pés argênteos, filha do velho mar, tenha te iludido, pois hoje bem cedo ela se sentou ao teu lado e apertou teus joelhos. Creio que lhe fizeste a promessa solene, por um aceno, de honrar Aquiles e destruir muitos homens ao lado dos navios dos aqueus.

                Zeus, o ajuntador de nuvens, respondeu-lhe, então, dizendo:

                – Louca, és sempre desconfiada, nem eu escapo de ti. Nada poderás, no entanto, fazer: estarás ainda mais longe do meu coração e será pior para ti. Se é como dizes, é que assim quero. Senta-te em silêncio e obedece à minha ordem; os deuses que moram no Olimpo não poderão valer-te, se eu me aproximar para lançar sobre ti minhas mãos invencíveis.

Assim falou ele, e a rainha Hera, dos olhos bovinos, teve medo. Sentou-se em silêncio, dominando o coração.

 

Depois de ler e mostrar esse trecho, eu apareço novamente na tela dizendo “Isso mesmo, Zeus vira para sua esposa e diz: ‘Cala a boca, mulher, ou eu vou encher a sua cara de porrada!’” e faço, então, cara de desagrado e abro as mãos.

A “Síntese da manifestação” simplesmente cita essa parte da minha interpretação. Literalmente, aparece um item escrito “cala a boca mulher vou encher sua cara de porrada”. Se a reclamação do pai do aluno é porque ele acha inaceitável que se agrida uma mulher, eu concordo com ele. É inaceitável mesmo. Porém, qualquer pessoa que assistir à videoaula com atenção vai perceber que eu estou parafraseando o que diz o texto de Homero, tanto que o início da minha fala após citar a Ilíada é, literalmente, “Isso mesmo, Zeus vira para sua esposa e diz: ‘Cala a boca, mulher, ou eu vou encher a sua cara de porrada!’”. Se o pai do estudante não percebeu que eu estava explicando o que dizia o texto, recomendo que ele veja a videoaula com mais atenção. E torço para que o filho dele tenha assistido a aula com mais atenção que o pai.

Agora, se a reclamação é porque ele acha que, na Ilíada, Zeus não disse “Cala a boca, mulher, ou eu vou encher a sua cara de porrada!”, recomendo que ele leia, novamente, o trecho entre os versos 555 e 569. Caso, depois de reler, o pai do aluno ainda não tenha percebido que esse é exatamente o conteúdo da fala de Zeus, recomendo que ele encaminhe uma reclamação a quem o alfabetizou, pois ele tem sérias dificuldades de interpretação de texto.

A segunda reclamação aparece da seguinte forma na “Síntese da manifestação”: “nossa sociedade escrota aprendeu tanto com os gregos”, citando o momento seguinte da aula, em que eu leio outro trecho da Ilíada (os três últimos versos do Canto I), mostrando que, depois de ameaçada por Zeus, Hera vai dormir com o seu marido. Como em nossa sociedade mulheres continuam com seus maridos, mesmo em relacionamentos violentos e abusivos  tal qual na dos gregos , eu comento “Clássico, né? Nossa sociedade escrota aprendeu tanto com os gregos...”.

A primeira frase “Clássico, né?” refere-se ao assunto da aula anterior, sobre o conceito de “clássico” (https://youtu.be/phyELx5hzfk?si=OtSKcFHI-oGsCzd6). E, tendo em vista que nossa sociedade toma uma atitude parecida com a dos helenos, achei uma boa forma de – subliminarmente – retomar o assunto.

A frase seguinte, o conteúdo da reclamação, “Nossa sociedade escrota aprendeu tanto com os gregos...”, conta com uma palavra considerada de baixo calão. Se é por causa disso que o pai do aluno está reclamando, aí, porra, eu tenho que me desculpar. Não quis ofender ninguém falando um palavrão.

A reclamação seguinte é sobre o momento que eu utilizo um trecho de uma entrevista dada pela ex-Secretária da Cultura Regina Duarte. O objetivo do trecho era explicar o conceito de anacronismo e dizer o quanto é importante não cair nesse erro ao analisar um documento histórico. Como, pelo visto, minha explicação não foi clara o bastante para o pai do aluno, recomendo esse vídeo aqui que fala do tema de maneira bem mais detalhada: https://www.youtube.com/watch?v=WjUOCaY4GLI.

Agora, se a reclamação feita pelo pai é porque ele considerou a citação esquerdista e, portanto, que eu ofendi o grupo político dele, recomendo que ele veja outros conteúdos disponibilizados para os estudantes. Por exemplo, foi indicado para os alunos o podcast Café Brasil, que conta com uma ideologia abertamente à direita. Meu objetivo é permitir que os estudantes contem com uma grande gama de ideias para formar o próprio senso crítico. De qualquer modo, a utilização do trecho da entrevista pode ser respaldada por historiadores de renome como Howard Zinn em seu livro Você não pode ser neutro num trem em movimento (Curitiba: L-Dopa, 2005.).

A última reclamação está ligada à leitura de um trecho entre os versos 289 e 295, do Canto V da Ilíada. Nela, Diomedes joga sua lança em Pândaro. Com detalhes, Homero explica como a lança atingiu “o nariz do outro, junto dos olhos, e passou através dos dentes brilhantes. O duro bronze cortou a língua em sua raiz e a ponta apareceu sobre a mandíbula.”. Uma cena sangrenta e horrível. Então, eu comento ironicamente: “Dá para aparecer na programação infantil, né?”. Trata-se de um comentário jocoso e, principalmente, irônico. Caso o pai do estudante não saiba o que é ironia, informo que se trata de uma figura de linguagem utilizada para dizer o contrário do que se está afirmando diretamente. Se ele não percebeu que minha fala é uma ironia, recomendo, novamente, que ele encaminhe uma reclamação a quem o alfabetizou, pois sua dificuldade em interpretar textos é realmente vergonhosa.

Espero ter respondido todos os pontos.

Atenciosamente.

M. Ulisses Trida.

31 de agosto de 2025

Padre existe é para...

  

            A mais famosa obra de João Cabral de Melo Neto é o livro Morte e Vida Severina. Conhecê-la é uma experiência maravilhosa, mas não é nenhum desafio. O poema é de fácil e gostosa leitura. Já foi recitado em inúmeras peças, já virou filme, animação, récita em vagão de metrô. Recentemente, tive o privilégio de conhecer outra obra de João Cabral que gostei tanto quanto: o Auto do Frade.

            A obra toda é linda, mas foi um trechinho que me ganhou. Em meio às explicações do porquê da condenação do frade, um oficial diz que

“Padre existe é para rezar

pela alma, mas não contra a fome.”

            O trecho já era forte quando foi escrito, em 1984, e continua forte agora, no século XXI. Vivemos em um momento histórico em que muitos cristãos criticavam um pontífice como o Papa Francisco e criticam um padre, como o Júlio Lancellotti, exatamente por rezar contra a fome.

É triste. Ainda bem que um pouco de arte ajuda a vencer um pouco da tristeza e talvez até abrir alguns olhos. Se bem que não é difícil encontrar alguém que vá dizer: “Literatura existe é para...”.

31 de julho de 2025

Marcas de quem leu

             Eu adoro ler, mas não sou lá a pessoa que tem mais cuidado com livros físicos. Pra mim, livro é para ser lido, não é para ser um objeto intocável como a Mona Lisa no Louvre ou o action figure da princesa Leia, de 1988, ainda na caixa, que meu vizinho do quinto andar deixa dentro de uma redoma de vidro. Meus livros são grifados, com post-its, andam comigo no ônibus. O que me importa é lê-los, não simplesmente preservá-los para a fazendinha de pó (safra automóveis de São Paulo, 2025) no alto da estante.

            A exceção, óbvio, são os livros das bibliotecas. Aquelas obras não me pertencem, elas são de todo mundo. Têm de estar inteiras e no melhor estado possível para a próxima pessoa que for ler. Então, por mais que esses livros também me acompanhem no transporte público, eles nunca são riscados e são sempre abertos com muito cuidado.

            Não é à toa que as pessoas que trabalham em bibliotecas deixam registrados os danos que os livros já sofreram. Peguei um livro certa vez que a filipeta da biblioteca dizia “manchas de umidade a partir da página 50”. Eram manchas pequenas, mas o aviso servia para nenhum usuário tomar uma bronca injusta por algo que não havia feito. Se bem que, também, já peguei livros em mau estado, sem nenhuma marcação feita pela biblioteca e fiquei receoso de tomar algum pito no balcão de devolução.

           



            Esta semana, depois de meses tentando, consegui retirar o A amiga genial, da Elena Ferrante. A biblioteca perto do meu trabalho só tem um exemplar e ele estava sempre alugado. Exatamente por passar por muitas mãos, o livro não está lá no seu melhor estado de conservação. Sem ligar para isso, fiquei feliz por encontrar a obra e a levei até o balcão. A bibliotecária me atendeu, registrou tudo e me entregou:

            – Devolução até dia 8 de agosto.

            Agradeci e, saindo da biblioteca, conferi a filipeta.

           



            Atenciosa e sincera, a bibliotecária escreveu: “livro com muuuuuitas marcas de uso”.

Achei a atendente muuuuuito fofa. Com certeza não vou tomar bronca na hora de devolver o livro.

            

9 de junho de 2025

Puladinho: origem

 


        Videoaula ensinando uma das versões do puladinho, um passo clássico do samba de gafieira, e pensando um pouco sobre sua origem.

Como no vídeo eu só mostro como fazer o puladinho, mas acabo utilizando outros passos de samba, segue, também, um vídeo mostrando como fazer os outros passos utilizados.

  

Bibliografia, fontes e materiais utilizados:

- Vídeo dos bailarinos Valéria Seki e Jaime Arôxa. 2021. Disponível em https://youtu.be/E8JxfHkXj2Q?si=zLxkauruMfFwny7D.

- Trecho do clipe “A Cara do Crime ‘NÓS INCOMODA’ (MC Poze do Rodo, Bielzin, PL Quest e MC Cabelinho)”. 2021. Disponível em https://youtu.be/2PRAiVs3MVc?si=Ahj7C0zq8Kf3LoW0.

- EFEGÊ, Jota. Maxixe, a dança excomungada. Rio de Janeiro: Gráfica Lux, 1974.

- GONZALEZ, Lélia. Festas populares no Brasil. Rio de Janeiro, Índex, 1987.

- MOREIRA, Quincas. “Malandragem” (música). 2019. Disponível em https://www.youtube.com/@QuincasMoreirahttps://www.youtube.com/audiolibrary.

- TINHORÃO, José Ramos. Os sons que vêm da rua. São Paulo: Editora 34, 2013.

 

26 de maio de 2025

A bossa nova e o samba de gafieira

 

            Videoaula refletindo se a dança conhecida como samba de gafieira passou pelo mesmo processo que a bossa nova.

 


 

Bibliografia, fontes e materiais utilizados:

- Foto de Nara Leão em seu apartamento. 1958. Disponível em https://revistacontinente.com.br/edicoes/247/ninguem-pode-com-nara-leao-1.

- Vídeo dos bailarinos Ana Galioti e Paulo Fonseca. 2020. Disponível em https://youtu.be/NTLtypnfC18?si=nCMQps0HbNNkoBge.

- Vídeo dos bailarinos Pety e Vanessinha. 2023. Disponível em https://youtu.be/qgHMcEwi7zg?si=zUWwU9AgcLqbV6oi.  

- Vídeo dos bailarinos Robinho e Evelin. 2023. Disponível em https://youtu.be/cx70R0Yjb-Y?si=_84jmUgUMtOySkE9.

- Vídeo dos bailarinos Valéria Seki e Daniel Costa. 2024. Disponível em https://youtu.be/GdENqCUiSrQ?si=18RPMT2_HHOPSf4L.  

- BRAGA, Rubem. “O morro não é dos malandros”. 26/11/1936. Disponível em https://revistamovinup.com/artigosespeciais/2017/rubem-braga-o-morro-nao-e-dos-malandros.

- JESUS, Carlinhos de. Vem dançar comigo. São Paulo: Editora Gente, 2005.

- JOBIM, Antônio Carlos; MORAES, Vinicius de. “Garota de Ipanema”. Música. 1962. Disponível em https://youtu.be/KJzBxJ8ExRk?si=CkiCV-CRIf0kcnyD.

- MENESCAL, Roberto; BÔSCOLI, Ronaldo. “O barquinho” interpretado por Nara Leão. Música. 1961. Disponível em https://youtu.be/B6JPFy0OM1M?si=kDnF4byoPdRFpy2r.

- TINHORÃO, José Ramos. Os sons que vêm da rua. São Paulo: Editora 34, 2013.

 

30 de abril de 2025

Elevados... (e sem tempo para indicar?)

 


            No finalzinho deste mês de abril de 2025, tive o privilégio de assistir ao espetáculo Elevados, do grupo Gumboot Dance Brasil.

A plateia estava cheia de crianças pequenas e algumas delas começaram chorando, mas foi só começarem as movimentações mais chamativas que todas ficaram fascinadas. Foi um espetáculo lindo, potente, contando uma história com danças africanas. Como minha especialidade é dança de salão, consegui pegar algumas referências, mas Elevados foi tão rico e diverso que tenho certeza de que não consegui perceber nem a metade. Mesmo assim, valeu cada minuto.

Queria muito poder indicar para todo mundo, porém não sei se o Gumboot Dance Brasil vai apresentar o espetáculo novamente. Pelo menos nas redes sociais do grupo, não há nenhum anúncio.

 


De qualquer modo, caso você tenha a oportunidade de vê-los, indico fortemente.  

3 de março de 2025

Carnaval, com uma criança, em tempos de internet

 

            Meu sobrinho mais velho não tem a menor vontade de fazer programas mais agitados de carnaval. Mas, aceitou dançar... se fosse para gravar um vídeo:

 


 

Música: SneakyBass Latina (Jimmy Fontanez, Doug Maxwell & Media Right Productions).

Versão vertical no YouTube ou no Instagram.

25 de fevereiro de 2025

As origens do lindy hop

 

    Videoaula sobre as origens da dança conhecida como lindy hop.

 


Bibliografia, fontes e materiais utilizados:

 

- “Cake Walk”. Vídeo. United States: American Mutoscope and Biograph Company, 1903. Disponível em https://youtu.be/QifiyNm6jG4?si=74ufi4SelwrgOcWz.

- “Frankie Manning dancing Lindy Hop at the Savoy (Late 1930s?)”. Vídeo. 2012. Disponível em https://youtu.be/ZQIWFOU-bp4?si=fTak7Ao6A8iskuDw.

- “GAP Swing Commercial”. Vídeo. 1998. Disponível em https://youtu.be/XJ735krOiPo?si=RZlfQTC13O98s7fn.

- “LBJ - Lindy Hop in Music Videos”. Vídeo. 2013. Disponível em https://youtu.be/hKuOM2XkUoY?si=IgiZ_E-P-nPu9OoD.

- “Lindy Hop en Ask uncle Sol (1937) 2K 60FPS - Remasterizado por IA | «Shorty» George Snowden, Big Bea”. Vídeo. 2021. Disponível em https://youtu.be/HiF_EGOpRyw?si=dgyupiBK12Cbodlj.

- AGUILERA, Christina. “Candyman”. Clip. 2009. Disponível em https://youtu.be/-ScjucUV8v0?si=MB2tEg5o_5uMCfCl.

- MOORE, Nathan. “Up and at em”. Música. 2025. Disponível em https://www.youtube.com/@NathanMooreSongs/featured e https://www.youtube.com/audiolibrary.

- POTTER, H. C.. Hellzapoppin'. Filme. 1941.

 

31 de janeiro de 2025

Tertuliana Lustosa e Xica Manicongo

 


“... Xica Manicongo

Travesti do início do Brasil colonial

Que retirada da sua vida no Congo

Foi confiscada de seu direito primordial”

 

            Ouvi falar de Tertuliana Lustosa pela primeira vez em meio à polêmica dela rebolando em umevento acadêmico. Foi, provavelmente, no mesmo ano de 2024 que eu soube da existência de Xica Manicongo. A diferença é que, enquanto Tertuliana vive, estuda e produz sua arte neste século XXI, Xica viveu no século XVI. É muito triste ver certas histórias apagadas.

Entretanto, achei interessantíssimo reencontrar as duas no cordel que Tertuliana Lustosa escreveu (trechos acima e abaixo), enquanto eu passeava pelo Masp.

 

“Hoje somos seguidoras de Xica

E fazemos a cada esquina nossa labuta

Não à toa usamos o cordel

Em memória ao nordeste e à sua luta”

24 de dezembro de 2024

Um presente


            Eu e minha esposa presenteamos uma amiga querida com o doce livro da Helô D'Angelo. As imagens abaixo são, respectivamente, (1) o livro e a cartinha com a dedicatória, (2) o livro e o envelope-tsuru para a carta e (3) o fofo embrulho de natal da Livraria Simples.

 




            Obviamente, nem a Helô, nem a Simples me pagaram para fazer publicidade deles. Honestamente, neste momento, qualquer tentativa de me pagar para fazer propaganda seria um desperdício de dinheiro, mas indico ambos (e por isso os linkei). A Carol, a minha amiga presenteada, não está linkada porque ela não está vendendo nada e não sei se apreciaria esse tipo de publicidade.

 

            Ah, e para quem gosta de espiar cartinhas alheias, segue abaixo:

 

Carol,

 

            Começamos a admirar você em momentos diferentes. Eu, durante o clube do livro que organizei aqui no prédio; a Marcela, depois dos primeiros momentos das reuniões dos conselhos. E foi pela admiração que temos e por toda a luta que vocês têm feito juntas que resolvemos presentear você com este livro.

            Encontrei por acaso este Nosolhos de quem vê na biblioteca. Li, refleti, fiquei com raiva, com vontade de chorar, admirado... e, ao chegar em casa, comentei com a Marcela que talvez um dia uma das nossas sobrinhas precisasse do livro (atualmente elas têm 4 e 2 anos e só precisam do tio fantasiado do Papai Noel). Quando decidimos demonstrar toda a admiração que nutrimos por essa pessoa maravilhosa que você é, este livro caiu como uma luva para você que, além de tudo, é mãe de meninas que talvez estejam na idade certa para a obra.

            Esperamos que goste do carinho e da leitura.

 

Feliz aniversário e boas festas.

Mauricio e, coassinando, Marcela. 

30 de novembro de 2024

– E as crianças?

 

            Naqueles segundos em que duas pessoas semidesconhecidas ficam trancadas dentro de um elevador, muitas vezes rola um silêncio sem graça; em outras, aprofunda-se em um interessantíssimo tratado de meteorologia – “Tá quente, né?”. Não são essas as estratégias de uma vizinha que, recentemente, mudou-se para o meu prédio.

            Tentando aparentar intimidade, logo no primeiro encontro que minha esposa e eu tivemos com essa vizinha, após as protocolares trocas de cumprimentos, ela já mandou:

            – E as crianças, como estão?

            Estranhando um pouco e meio constrangidos, respondemos um “Bem...”.

Nos encontros futuros, o “E as crianças?” se repetia e o diálogo nunca caminhou muito mais que isso. Até que, em um final de semana, no início da noite, nós chegamos ao prédio, chamamos o elevador e, enquanto esperávamos, a vizinha chegou:

– Boa noite.

– Boa noite. Tudo bem? – respondi, enquanto abria a porta do elevador.

– Tudo. E as crianças, como estão?

– Ah, hoje devem estar um pouco chateadas. Passamos a tarde toda fora e elas ficaram sozinhas.

Estranhando a informação, a vizinha ficou um segundo parada depois de apertar o botão do sétimo andar. Virou-se, olhou nos olhos da minha esposa e perguntou:

– Mas... são crianças ou adolescentes?

– ... Éééé... São cachorros.

– Ah, tá.

Subimos o resto da viagem em silêncio.

 

30 de outubro de 2024

Poesia indígena

 

            Videoaula sobre poesia indígena.

 


 

Bibliografia, fontes e materiais utilizados:

- “Curta! Poesia - Marcia Wayna Kambeba” (vídeo). Canal Curta!. 2017. Disponível em https://youtu.be/y3O7DOD9pSM?si=Tu6bMdBJIkUHzPJP.

- “Cultura indígena bororo” (vídeo). Rotas de Mato Grosso – Genito Santos. 2020. Disponível em https://youtu.be/uacVMPEIK_k?si=6fFCLs9Quxr33hgL.

- Fotografia de Carlos Drummond de Andrade no Correio da Manhã. Foto do Arquivo Nacional. 1970.

- Fotografia de Machado de Assis, tirada por Marc Ferrez em 1890.

- “Poesia indígena na língua do povo puri” (vídeo). Azuruhu. 2021. Disponível em https://youtu.be/1LsF-_hXExk?si=2nd1bAsnPlKaf8KS.

- Trecho humorístico com participação do youtuber Felca. Disponível em https://www.youtube.com/@felcaseita/videos. 2023.

- ALBISETTI, Cesar; VENTURELLI, Angelo Jayme. Enciclopédia Bororo. Campo Grande: Museu Regional D. Bosco, 1970.

- ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do Mundo. Rio de Janeiro: Record, 1999.

- ASSIS, Machado de. “O passado, o presente e o futuro da literatura brasileira”. In.: A Marmota. Rio de Janeiro: 1858.

- BOLOGNESI, Luiz. Guerras do Brasil.doc (documentário). Rio de Janeiro: Curta!, 2019. 

- COHN, Sergio. Poesia.br. Rio de Janeiro: Revistas de Cultura, 2021.

- CONTRERAS, Jimena. “World’s Sunrise” (trilha sonora). 2022. Disponível em https://www.youtube.com/@JimenaContreras e https://www.youtube.com/audiolibrary.

- GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2008. (Além da imagem do frontispício original.)

- SEEGER, Anthony. “O que podemos aprender quando eles cantam: gêneros vocais do Brasil Central”. In: SEEGER, Anthony. Os índios e nós: estudos sobre sociedades tribais brasileiras. Rio de Janeiro: Campus, 1990. pp. 83-106.

- SEEGER, Anthony. Why Suya Sing. Illinois: University of Illinois Press, 2004.

30 de setembro de 2024

Quer rejuvenescer seu cachorro? Pergunte-me como.

             Como já contei por aqui, em maio eu e minha esposa adotamos uma cachorra idosa chamada Sherazade. Sabíamos que não seria um processo fácil, mas, com muita paciência, tudo funcionou sem surpresas. Ou melhor, tivemos uma surpresa: a cachorrinha começou a rejuvenescer. 

            Tá, eu sei, ela não é O curioso caso de Benjamin Button e não está rejuvenescendo. Mas, algo muito interessante tem acontecido. Quando a Sherazade chegou aqui em casa, o focinho dela era bem branquinho. Agora, pouco mais de 4 meses depois, cada vez mais pelinhos castanhos têm aparecido no focinho dela. Veja as fotos abaixo. A foto de cima, logo que ela chegou, em maio; a outra tirada agora, no fim de setembro.

 



            Se alguém veio aqui ler este texto em busca de uma receita milagrosa, saiba que não fizemos nada de espetacular. A cachorra chegou muito acima do peso. Seguimos as recomendações do veterinário e estamos cuidando da dieta dela, dando uma ração (que me custa um fígado por mês) para ajudá-la no emagrecimento. Além disso, ela era uma cachorra de uma senhora que tinha dificuldade para andar e, portanto, a Sherazade não passeava. Atualmente, ela faz bons passeios todos os dias (passeios que foram aumentando de tamanho aos poucos).

            Só amor e cuidado, nada de mágico. A não ser que, daqui a uns meses, eu venha mostrar uma foto dela filhotinha. 




31 de agosto de 2024

Como colocar uma citação aleatória em um texto

 


            A Literatura conta com recursos tão fascinantes que é capaz de deixar qualquer historiador com inveja. Caso um escritor queira colocar uma citação interessante que ouviu por aí em um romance, mesmo que de uma fonte aleatória e não segura, os caminhos estão sempre abertos.

            Harper Lee, a autora do clássico To kill a mockingbird, fez isso no seu último romance, o Go set a watchman (ou, no Brasil, Vá, coloque um vigia). Em um momento qualquer da obra, após uma personagem falar sobre um governante alemão, Harper Lee escreve:

            Jean Louise se lembrou de um poema absurdo. Onde tinha lido?

Com a graça de Deus, minha cara Augusta,

obtivemos mais uma vitória robusta;

dez mil franceses foram para a cova.

Agradecemos a Deus por essa boa-nova.*

            A quadrinha é atribuída, desde o final do século XIX, ao kaiser alemão Guilherme I. Segundo as propagandas dos próprios alemães, o imperador escreveu esses versos para sua esposa Augusta de Saxe-Weimar-Eisenach relatando as vitórias prussianas sobre os franceses que, em 1871, levaram a unificação da Alemanha.

            E o que essa quadrinha tem a ver com a estória do romance da Harper Lee? Nada. Mas, ela deve tê-la achado interessante e resolveu colocá-la na memória da personagem principal. Eu achei interessante e resolvi colocá-la aqui.

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P.S.: Curiosidade extra. No Brasil o To kill a mockingbird, o primeiro romance de Harper Lee, costuma ser traduzido como O sol é para todos. Em Portugal existem duas versões mais comuns: Por favor, não matem a cotovia e o Mataram a cotovia.

 

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* Retirado de LEE, Harper. Vá, coloque um vigia. Tradução Beatriz Horta. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015. p. 161.

 

31 de julho de 2024

Lei & Ordem & Violência Policial

 

            Ouvi, por anos, elogios à série Lei e Ordem (Law & Order). Mais louvores ainda vinham para seu spin-off, a Lei e Ordem: Unidades de Vítimas Especiais (Law & Order: Special Victims Unit). Dia desses, o streaming que tenho assinado passou a ter em seu catálogo a Lei e Ordem: UVE, temporadas 6, 7, 9, 10 e 11. Comentei com uma amiga fã da série que era uma pena não poder começar do início do seriado. Ela me respondeu que não fazia diferença, que a maior parte dos episódios eram bem fechados em si próprios, que não era necessário ver tudo. Aceitei o conselho e fui assistir.

O Lei e Ordem original começou a ser exibido em 1990; seu spin-off, em 1999. Ambos continuam com temporadas agora em 2024 e não parece que as gravações pararão tão cedo. A quantidade de fãs é enorme. Eu, pessoalmente, só vi a sexta temporada do Lei e Ordem: UVE e, mesmo gostando de assistir, tive um problema com o seriado que não fulgurou nos inúmeros comentários que chegaram até mim: como os policiais do seriado cometem crimes o tempo todo e como, no geral, isso não tem consequência alguma.

Vou me focar em uma personagem –, o detetive Elliot Stabler, interpretado pelo ator Christopher Meloni, – e em um crime –, a violência policial.



Não existe a menor dúvida, Elliot Stabler (pelo menos na sexta temporada), é um policial dedicado. Ele se esforça surrealmente para resolver o caso em que está trabalhando, acima mesmo do seu próprio bem-estar. Falando assim, ele parece absurdamente admirável.

Os problemas aparecem em meio a todo esse esforço. Enquanto se dedica para resolver um crime, Stabler e os outros policiais entram em locais sem mandato e isso nem parece ser uma questão na maior parte dos episódios. Ameaçar, mentir e afins também costuma ser comum. Mas, de longe, o local mais problemático, que mais me causou asco, foi assistir as atitudes de Stabler com as pessoas na sala de interrogatório.

Tentando conseguir pistas ou confissões, os policiais ameaçam, invadem o espaço pessoal da pessoa interrogada e, sem a presença de advogados, cometem outros tipos de abuso. Stabler, entretanto, passa ainda mais desse limite que nem deveria ter sido ultrapassado. Em mais de um episódio da temporada 6, ele pega o interrogado, bate o corpo da pessoa contra a parede, estrega a cara dele na mesa e coisas do tipo. Vale ainda acrescentar: as pessoas com quem Stabler mais toma esse tipo de “liberdade” costumam ter uma classe social bem específica; interrogando pessoas com maior poder aquisitivo, ele fica parecendo os outros policiais da série. Elogios, portanto, ao realismo da direção do seriado.

            – Ah, Ulisses, deixa de ser chato! Ele está lidando com criminosos. –, talvez me diga algum leitor mais incauto.

            Mesmo se estivesse lidando apenas com pessoas que cometeram crimes, nenhum policial pode agir assim com uma pessoa que está pacificamente sentada em uma sala de interrogatório. Só que nem é o caso. Em mais de um episódio, Stabler age da sua habitual maneira violenta com uma pessoa interrogada que, com o andamento da história, acaba se mostrando completamente inocente. Isso, no entanto, nem entra na reflexão. O ato criminoso feito por Stabler não tem literalmente nenhuma consequência para o policial e, se teve alguma consequência negativa para a pessoa, o ponto nem é abordado.

            Consigo entender completamente o esforço de toda equipe policial para capturar pedófilos, estupradores e afins. Entendo, também, quem assiste uma personagem como Stabler e só vê um policial dedicado. Assistindo, empolgado, completamente mergulhado na estória, torcendo para que uma criança sequestrada por um pedófilo seja salva, é perfeitamente compreensível ter algum pensamento tipo “Faça logo isso, Stabler! Aquela criança está correndo perigo!”. No entanto, é sempre importante lembrar que uma pessoa que está usando o poder do Estado para cometer violências contra outras pessoas sem nenhum limite, um herói que está cometendo crimes, não está agindo exatamente como um herói.

Pessoalmente, acho mais assustador ainda é ver tanta gente assistindo ao seriado e não pensando nisso.